Construção da Guitarra

Uma das primeiras questões que podem surgir quando se pensa na construção de uma guitarra está relacionada com o tipo ou espécie de madeira a utilizar. Esta escolha depende da qualidade do instrumento que se pretende construir; há madeiras que se utilizam especificamente para determinadas partes ou peças da guitarra, que serão mencionadas no decorrer deste estudo.
O processo da construção da guitarra começa pelo tampo. Este é constituído por duas placas de madeira, geralmente Cedro Canadiano, Tília ou Pinho Flandres, que são aparadas de forma a encostarem de uma forma perfeita uma na outra, e através da Tábua de Juntar (tábua específica dos Violeiros) são emendadas, utilizando cola de madeira na junção das duas.

Construção do Tampo da Guitarra

As duas placas são prensadas através de cordas e talas de madeira de forma a exercer força sobre as duas placas durante o tempo de secagem da cola. Depois deste processo, o tampo é lixado de forma a não se notar a zona de colagem das duas placas. Na placa resultante vai então ser riscada a forma do corpo da guitarra, para isso, utiliza-se um molde. Em seguida, a placa de madeira é cortada numa máquina chamada Tico-Tico Manual e daí resulta o tampo já com a forma do corpo da guitarra. Nesta fase limpa-se a madeira e acerta-se a espessura com uma máquina chamada Lixadeira. A espessura do tampo é cerca de 3 mm. . Nesta fase, é importante deixar uma margem a mais na espessura do tampo para quando se colocar o embutido se poder lixar novamente o tampo sem ultrapassar a espessura limite deste. Em seguida, fazem-se as marcações do local exacto onde será colocada a roseta com um compasso de metal.

Marcação da Roseta

Depois de cravada a forma da roseta no tampo, retira-se um pouco de madeira com um formão de forma a criar um pequeno afundamento no tampo, onde vai encaixar a roseta. Utilizando cola de madeira cola-se a roseta no seu respectivo encaixe, esta terá que secar durante duas a três horas até que se possa lixar e retirar a cola em excesso e acertar ou planar a altura da madeira da roseta em relação à do tampo. O próximo passo será a abertura do orifício da boca. Com o compasso metálico prensa-se a forma da boca e abre-se um pequeno furo na madeira por onde vai entrar a serra do Tico-Tico Eléctrico (máquina com mais precisão que o Tico-Tico Manual) que retira um pedaço de madeira em forma de roda, ficando assim aberto o orifício da boca.

Entretanto começa-se a trabalhar no braço da guitarra. Este é comprado a um fornecedor especializado e vem com a forma que podemos ver na próxima figura. A madeira utilizada é Mogno Brasileiro.

Braço da Guitarra

Na parte superior do braço encontramos um plano de madeira com uma ligeira inclinação, que vai dar origem à cabeça da guitarra. Esta é construída utilizando um molde específico. Na parte inferior do braço encontramos a alpatilha, esta parte vai ficar encaixada no interior da caixa de ressonância.

Depois de acertada a madeira da alpatilha e antes de colar o braço no tampo, riscam-se as barras harmónicas na parte interior do tampo. Estas barras são responsáveis pela projecção e rentabilização da sonoridade do instrumento.

Marcação das barras

Existem vários modelos de barras harmónicas:

 

Modelos de barras harmónicas


Em seguida, cola-se o vergueiro no tampo da guitarra fixando-o com umas molas de ferro para consolidar a colagem. O vergueiro vai permitir mais tarde a junção das ilhargas bem como conferir rigidez à caixa de ressonância. Nesta altura também se cola o braço no tampo utilizando novamente as molas de ferro.

Colagem do Vergueiro de do Braço

Nesta altura começa-se a trabalhar nas ilhargas que são duas barras de madeira (geralmente Mogno, Nogueira ou Pau Santo), que estabelecem a ligação entre o tampo e as costas da guitarra. As ilhargas têm a espessura de 2 mm mas depois de trabalhadas ficam com 1,5 mm de espessura.

Farol

As ilhargas são acertadas no tamanho, lixadas e "vergadas" através de calor, utilizando o Farol (espécie de um forno que aquece as paredes de um tubo metálico onde vão ser dobradas as ilhargas), de modo a encaixarem na forma do molde e no tampo. Depois das ilhargas dobradas é necessário atá-las rapidamente com cordas para estas não perderem a forma que lhes foi dada enquanto arrefecem.

Dar forma as ilhargas

Entretanto cortam-se os escantilhões, pequenos triângulos de madeira que vão reforçar a colagem entre as ilhargas e o tampo e também vão provocar uma maior difusão sonora dentro da caixa de ressonância. As ilhargas, por sua vez, vão servir de suporte ao tampo quando se abrirem as ranhuras dos embutidos. Depois das ilhargas arrefecerem e serem retiradas as cordas que estavam a sustentar a sua forma, têm que ser coladas imediatamente no tampo, no vergueiro e na parte interior do braço, para evitar que estas se deformem. Para assegurar uma boa colagem utilizam-se várias molas de ferro que vão exercer força sobre as superfícies a colar. Nesta altura também se colam os escantilhões, sendo necessário cerca de uma hora para garantir uma boa colagem.

Colagem das ilhargas


Entretanto constroem-se as sanefas que são barras finas de madeira macia que vão ser coladas nas ilhargas e vão servir de suporte às costas da guitarra. Para dar forma às sanefas é necessário tornar a madeira mais maleável utilizando uma lima para se dar pancadas na sanefa de forma a "estalar".
Entretanto constroem-se também as travessas que são barras de madeira macia, com os seus extremos oblíquos e com a base de colagem larga. A parte de cima das travessas deve ser o mais fina possível para não "criar barreira" às ondas sonoras. As travessas podem ser duas ou três. A primeira serve de reforço à escala e asegunda e terceira servem de reforço à boca. Nesta altura colam-se as barras harmónicas, as travessas, as sanefas e os suportes das travessas do tampo. Estas últimas são barras de madeira que se colocam verticalmente entre as travessas e as sanefas. Entretanto dá - se a seguinte forma às barras harmónicas já coladas no tampo:

 

Barra Hamónica

 

Nesta fase "desempena-se" a caixa, ou seja, acerta-se a altura das ilhargas. É importante nesta fase deixar a altura da alpatilha ligeiramente mais alta, para que depois, em conjunto com as travessas das costas, se obtenha a forma um pouco arredondada nas costas. Para finalizar o interior da caixa de ressonância, limam-se e cortam-se todas as arestas das sanefas.
Nesta altura começa-se a construção das costas da guitarra. O processo é idêntico ao do tampo. As costas são duas placas de madeira de Mogno (geralmente da mesma madeira que as ilhargas), com um embutido de Pau Santo na junção das duas placas.

Costas da guitarra

Na parte que fica dentro da caixa de ressonância encontra-se o malhete, que é uma tira que reforça a junção entre as duas placas que formam as costas. Em seguida risca-se a forma da caixa na placa de madeira para se cortar no Tico-Tico Manual. Em seguida lixam-se as costas e acerta-se a espessura da madeira cerca de 2,5 mm.
Em seguida constroem-se as travessas das costas que são três barras de madeira, geralmente Chopo Americano ou Casquinha, porque são madeiras leves e assim reduz-se o peso do instrumento. Para as travessas das costas encaixarem na caixa de ressonância é necessário cortar um pouco das sanefas de forma a que as travessas encaixem na zona do corte. Nas costas também se tem que cortar o malhete nos locais exactos onde passam as travessas.
Em seguida colam-se as costas na caixa de ressonância. Para fixar as costas durante a colagem utilizam-se cordas em torno da caixa de ressonância reforçadas com cunhas de madeira. Depois de seco, é altura de aparar a madeira em excesso do tampo e das costas.

Caixa de ressonância


Com uma serra eléctrica abre-se uma ranhura no tampo onde vai encaixar o embutido. Este é constituído por três finas folhas de madeira dupla (pretas e brancas);é utilizada cola de madeira e um martelo para martelar suavemente as folhas de madeira de forma a estas entrarem à pressão nas ranhuras abertas no tampo.
A escala é uma placa de madeira, geralmente Pau Preto, que é cortada e ajustada ao braço. Antes de se colar a escala no braço, este tem que ser "desempenado" para acentar de uma forma perfeita e acertar a parte final da escala com a boca da guitarra. Só então se cola a escala com cola de madeira e utilizam-se cordas e cunhas para reforçar o contacto da escala com o braço durante a secagem.


Agora é altura de "fazer o braço e a alpatilha". Esta fase consiste em esculpir na madeira a forma circular na parte traseira do braço e acertar a sua espessura assim como a forma da alpatilha (da parte que fica de fora da caixa de ressonância - quilha). Depois de se ter dado a forma ao braço, este tem que ser lixado para eliminar rugosidades que possam ter ficado; a cabeça também é lixada e os buracos onde se vão encaixar os carrilhões são limados.

Construção do braço


A escala terá que ser desempenada, mas terá que ficar com uma ligeira curva que depois se endireita quando se colocarem os trastos devido à pressão que estes exercem sobre a escala. Com uma régua marca-se o local exacto dos trastos. A colocação dos trastos tem que obedecer à Regra dos Dezoito . Depois de marcada a localização dos trastos, afundam-se as ranhuras utilizando uma pequena serra manual. Para facilitar os movimentos da serra e obter umas ranhuras mais perfeitas unta-se a lâmina com sabão, e depois com uma lixa de água lixa-se a escala.
Os trastos são provenientes de um longo fio de metal em forma de "T" que são encaixados à pressão nas ranhuras abertas na escala. Para isso utiliza-se um martelo. Depois de colocados os trastos, são cortados e limados para evitar ranhuras indesejáveis. Os trastos são comprados na Alemanha e existem várias medidas para diversos instrumentos.

Colocação dos trastos

 

Em seguida abrem-se uns orifícios na parte lateral superior da escala com um furador para se colocar os pontos, no 3º, 5º, 7º, 10º e 12º espaços. Estes pontos são feitos de pau acrílico que é introduzido com um martelo à pressão no orifício. Depois são cortados e lixados de forma a ficar com a mesma altura da madeira da escala.

Em seguida coloca-se o pente ou pestana que geralmente é feito de acrílico, marfim ou osso. É cortado, lixado e colado no inicio da escala. É necessário abrir seis ranhuras de diferentes larguras, onde vão passar as respectivas cordas.

 

Cabeça da guitarra

 

O verniz aplicado nas madeiras da guitarra é muito importante pois influencia de uma forma determinante a sonoridade da guitarra - quanto mais fino for o verniz aplicado nas madeiras melhor será a sonoridade do instrumento.
Há dois processos de envernizamento : o processo manual ou artesanal e o processo industrial. O processo manual ou artesanal é o processo mais caro. Segundo este principio, aplicam-se três camadas de Verniz Celuloso, três camadas de Verniz Boneca Francês e no final Goma Laca. Com este processo obtém-se um envernizamento mais fino. O processo industrial consiste em aplicar à pistola uma camada de tapa poros e uma camada de verniz.
Para terminar só falta colocar os cravelhames e as cordas.

 

Espaçamento Entre Trastos e Compensação

O espaçamento entre os trastos da escala é um problema interessante que surge aquando da construção da guitarra. Os trastos dividem a escala em intervalos de meio tom temperado, que corresponde a uma razão com uma frequência de 1.05946 o que é muito perto da razão 18:17, o que nos introduz a Regra dos Dezoito. Esta Regra dos Dezoito diz que cada trasto deve estar colocado a 1/18 da distância restante (d) do ultimo trasto até à ponte. Assim, o espaçamento entre os trastos (x) vai diminuindo à medida que se vai percorrendo a escala em direcção à ponte.

 

Espaçamento dos trastos

 

A partir do momento em que a razão 18/17 atinge 1.05882 em vez de 1.05946 ( um erro de 0.07 %) cada meio tom vai ficar ligeiramente mais pequeno. Na altura em que se atinge o décimo segundo trasto a oitava vai estar 12 Cent (12/100 meios - tons) mais curta, que é perceptível ao ouvido humano. Então, para se obter uma melhor afinação, deve-se usar o número 17,817 em vez de 18, ou seja, cada trasto deve ser colocado a 0.05613 da distância restante àponte.

Cálculo do espaço entre os trastos :

X = d / 17.817


Em que :
X - espaço do trasto
d - Distância do último trasto à ponte

Outro problema presente neste instrumento, é que quando premimos uma corda contra o trasto estamos a aumentar ligeiramente a tensão da corda. Este efeito é mais evidente nas guitarras de cordas de aço que nas de nylon. Assim, as notas obtidas nos trastos tendem a ser ligeiramente mais agudas do que quando obtidas numa corda solta. Quanto maior for o espaço, em altura, entre a corda e o trasto (ou seja a escala), maior será o efeito de Sharpening. Para compensar esta alteração de tensão das cordas, provocada pela digitação das notas nos trastos, a distância do pente à ponte é tornada ligeiramente maior do que o comprimento da escala usada para determinar o espaçamento dos trastos. Este pequeno comprimento extra é chamado de "string compensation" (compensação da corda), e está compreendido entre 1 a 5 mm.